mardi, mars 30

Gosto do momento, exacto ou nem por isso,
em que se torna possível colar cartazes
nas paredes ao lado dos meus ombros (espero
o autocarro, vejo devagar, sorrio). Mas
gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono
que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas
- ou das pessoas que desconheço
e das bebidas todas que ignoro
(porque me matam menos e se chamam
- como eu - insónia, pesadelo, golpe baixo).

Existem, claro, raparigas louras um tanto
heteredoxas que não te apetece beijar
(a forca do bâton, perfeita - o cigarro aceso
pedindo outro lume
). Essas mesmas que hão-de
um dia procriar com zelo, evitando rugas,
tumores e o mundo como representação misógina.
Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas,
com a cerveja a premiar a farda
demasiado verde e os bigodes de serviço.

Outros, alguns, tornam concreto o torpor
de um charro e pedem-te em crioulo básico
um cigarro português que tu vais dar,
sem esforço nem palavras. Entre shots, piercings,
t-shirts de Guevara e gel, podes não acreditar
por algumas horas no axioma frágil do teu corpo.

Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar
qualquer, país de enganos e baratas. E
quase gostas disso, quase: a música de punhais,
servil, um certo e procurado desencontro.
Um táxi te ensinará depois o caminho de casa
- ou o seu contrário, pois só ali (anónimo
e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser.


O resto, a vida, fica para outra vez.

lundi, mars 22

(...)
porque há uma luz que nunca se apaga
vem-me de ti

Ou digamos cravo, cetim
- how beautiful -
destas horas vãs. Entre
o torpor e o excesso,
tão próximos (outra vez) da morte.

Num gesto de penumbra, avanças
- e o meu rosto passa
a ser outra coisa qualquer.

Fugaz sinónimo de beleza

em vez das punhetas do costume.

Esvair

v.t. Esvaziar, esgotar, exaurir/ V.pr. Desaparecer, desfazer-se, dissipar-se: esvaíram-se-lhe as últimas esperanças. / Passar com rapidez, escoar-se: a mocidade esvai-se insensivelmente. / Desmaiar, descorar, desfalecer. // Esvair-se em sangue, dessangrar, perder sangue em abundância. //

jeudi, mars 18

São tão poucas as cinzas
do que não se diz, o coração
amarrotado sem mesmo assim
ter onde caber – e sob
trémulas figuras, é isto apenas.

Esperar a morte já tanto vivida.

mardi, mars 16

O sorriso escasso,
O riso-sorriso,
A risada nunca.
(Como quem consigo
Traz o sentimento
Do madrasto mundo.)

Com os braços colados
Ao longo do corpo.
Vai pela cidade
Grande e cafajeste,
Com o mesmo ar esquivo
Que escolheu nascendo
Na esquiva Itabira.

Aprendeu com ela
Os olhos metálicos
Com que vê as coisas:
Sem ódio, sem ênfase,
Ás vezes com náusea.

Ferro de Itabira,
Em cujos recessos
Um vedor, um dia
Um vedor - o neto -
Descobriu infante
As fundas nascentes,
O veio, o remanso
Da escusa ternura

lundi, mars 15

(...)de todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca - de vodca, de lágrima e de café.

vendredi, mars 12

Puro cérebro sem dor perdido nos labirintos daquilo que tinha acabado de acontecer. Dor branca, querendo primeiro compreender, antes de doer abolerada, a dor. Doeria mais tarde, quem sabe, de maneira insensata e ilusória como doem as perdas para sempre perdidas, e portanto irremediáveis, transformadas em memórias iguais pequenos paraísos-perdidos. Que talvez, pensava agora, nem tivessem sido tão paradisíacos assim.

jeudi, mars 11

Não é fácil resistir a tudo
o que nos roubam.
Tempo, memória, mundo.
Toleramos o insuportável
com insuportáveis venenos.
Até melhor ordem, se houver.

Noutras casas (lembro-me)
éramos mais, bebíamos
apressadamente a juventude.
Mas a vida — chamemos-lhe
assim — separa os que se juntam,
gosta de abismos fáceis.

mercredi, mars 10

Mas tudo mais falece quando pensas tardança
E te despedes.
E quando pensas breve
Teu balbucio trêmulo, teu texto-desengano
Que te espia, e espia o pouco tempo te rondando a ilha.
E quando pensas vida que esmorece. E retomas
Luta, ascese, e as mós do tempo vão triturando
Tua esmaltada garganta... Mas assim mesmo
Canta! Ainda que se desfaçam ilhargas, trilhas...
Canta o começo e o fim. Como se fosse verdade
A esperança.

mardi, mars 9

Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.



...e o coração pulsando dentro começou a incomodar.

dimanche, mars 7



Chegas - se é que se pode chamar
regresso ao gesto anónimo
e vacilante com que vais deixando
para trás a madeira suja dos degraus.

Nunca saberás se te trouxe
um táxi, que música te roubou
- ou se a falta de dinheiro
te fez apanhar o último autocarro.


Sabes apenas que encontraste
as chaves e que não despiste
a roupa onde volta a ser teu o corpo.

Mas é-te impossível recordar
os rostos, o que disseram ou calaram,
o preço pago por tanto esquecimento.


Foi uma noite banal, portanto.
Nem amor nem sexo
- apenas
a perfídia de seres tu, o espanto
com que ao fim da tarde acordas
e percebes que o mundo
não teve o bom senso de acabar.

Por isso sais - ou foges (vai dar
ao mesmo) quando os vizinhos
regressam de mais um dia proveitoso,
dedicado à mecânica reprodução
do horror, da velhice e das taxas de juro.

Eles e tu movidos pela mesma nenhuma razão.

Não há, de facto, diferença.
Ou cedo deixará de haver
e é como se nunca tivesse havido.
Os primeiros dentes de um filho
deixam-nos certamente tão felizes
como o tango que acompanha agora
estes versos escritos quase à hora de acordarem.


O desespero tudo permite, tornando
equivalentes o livro que acabaste de fechar
e as infindáveis telenovelas com que
premeiam o cansaço e garantem o sono.

Adormecendo eles e tu, apesar da diferença
horária, sobre a imagem nula daquilo
a que insistimos em chamar "amor".


Talvez amor. Não sabes. Desces
de novo os mesmos degraus,
fugindo da bonança que não há
e do irremediável flagelo dos teus passos.
Pouco tens a dizer desse
desencontro, da noite fria que te espera.


Acreditas, uma vez mais, na morte.
(...) Quanto a ti, já reparaste como o mundo parece feito de pontas e arestas? Já chamei tua atenção para a escassez de contornos mansos nas coisas? Tudo é duro e fere. (...)

vendredi, mars 5

(...)
O corpo já quase não responde
a tanta tristeza. E a casa, devagar,
fecha-se para dentro, implode. Parece
um coração, uma metáfora que te deixa
nos ombros um irrepetível cheiro a merda
e a sombra de um gato que vai morrer.

(...)


jeudi, mars 4

Dias há para perceber o fundo do poço,
a sede dos dias que se afundam,
não se percebem.

E o fundo do poço percebe-se
que seja sede de dias.

De alturas antigas
que viajam em vertigem.

Viajam nos nossos filhos,
e na luz que nos protege
da sede.

A luz que descobre o fundo
dos poços.

A vertigem da descoberta
abre-nos a boca timidamente
e mata-nos a sede
dia-a-dia ,

como se de um suave amor
incondicional
se tratasse.


mercredi, mars 3

"para onde vão os trens meu pai? para mahal, tamí, para camirí, espaços no mapa, e depois o pai ria: também pra lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti."

mardi, mars 2


Incompossível




in.com.pos.sí.vel



O incompossível se fazendo ordem.




.

lundi, mars 1

Silente grito
aspergido pela saudade
nos meus veios circunscrito.

Capaz de derramar
gotículas longínquas de presença,

de tacanha fragilidade.


Silente grito caminhante,
viajante sem bagagem
rumo a um norte fátuo.








... e o coração posto a nu de tanta saudade.




-