vendredi, septembre 24

mercredi, septembre 8

samedi, août 28

Guardam as tardes, o silêncio
tranquilo e tolhido de movimento.

Habitam os homens
que precedem as partidas,
também tranquilos.

Que se vestem com acenos
na calma do momento.

Recordam os corpos calados
que se encurtam ferventes.

Que abertos nas costas
têm o peso da água.

Salpicam as horas graves.

Multiplicam-se no frio inerte da memória.

Julgam-se libertos, os homens,
com as palavras na expressão implacável
do entardecer dos passos últimos.


mercredi, mai 12

E a sensação nunca mais me deixou, de que meu corpo carrega em si todas as chagas do mundo.
.









não-dar-certo é o natural das coisas serem









.

vendredi, avril 30

.Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas.
.Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração.

mercredi, avril 28

Tudo isso, que é nada, subitamente parece tão absurdo e patético e insano e monótono e falso e sobretudo tristíssimo.

vendredi, avril 16

As mães, e até as que não eram mães,

achavam salutar que mergulhasses no mosto,

na promessa apenas desse vinho tinto

que ao enrijecer os músculos

despertava a alma para infâmias e paixões.

Que diriam agora, se o pudessem dizer,

essas mães? Deixa, qualquer abismo serve:




perdeste a infância e não encontraste o mundo.

mercredi, avril 7

e rompe através da noite, a noite toda, toda a noite

mardi, avril 6

Não há nada a fazer: domingos. Espesso,
demasiado claro, o silêncio tomba
sobre as ruas da cidade - e Junho
é um mês difícil, digam o que disserem
os ingleses e os poetas promovidos
pela cruel certeza de Abril. Junho,
ao domingo: no meu bairro fecharam
as lojas, as mercearias e os restaurantes.
Aberta, no entanto, a agência funerária,
mesmo em frente à casa de um poeta
amigo. E as tabernas que sobrevivem
- calçada dos Mestres n.º 44,
rua de Campolide n.º 82 - com
seus restos de tristeza, serradura e óleo.

Os santos (populares) repousam hoje
nos meus ombros terminais.
Nenhum trânsito, parcos transeuntes
hesitam em poluir a minha solidão
retórica. Um fado suspenso,
dir-se-ia, o bolor que devagar se forma
em volta de um manjerico falso.

Na porta da oficina de automóveis
uma cruz de cinza fotocopiada
justifica o ócio, a urgência de uma farda
já sem manchas de óleo (mas antes fumo
e gravata). Sim, a morte. Haverá
outro assunto? Tão óbvias sempre, e
mais próximas, as carícias com que chega
ao rosto que estamos a deixar de ter.

Sem sinos nem gritos de amor
bem temperado, ouve-se na tarde
apenas o rumor íntimo e distante
de um tambor que nos chama,
incessantemente. E os poemas,
os poemas todos, lhe obedecem.

Para que seja domingo sobre a terra
que pesada e fria nos esquece,
nos esqueceu já.
Lá fora alguém caminha no escuro. Posso ouvir nitidamente seus passos esmagando devagar o cascalho fino do jardim. Como se tomasse cuidado para não me acordar. Como se eu dormisse.

mardi, mars 30

Gosto do momento, exacto ou nem por isso,
em que se torna possível colar cartazes
nas paredes ao lado dos meus ombros (espero
o autocarro, vejo devagar, sorrio). Mas
gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono
que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas
- ou das pessoas que desconheço
e das bebidas todas que ignoro
(porque me matam menos e se chamam
- como eu - insónia, pesadelo, golpe baixo).

Existem, claro, raparigas louras um tanto
heteredoxas que não te apetece beijar
(a forca do bâton, perfeita - o cigarro aceso
pedindo outro lume
). Essas mesmas que hão-de
um dia procriar com zelo, evitando rugas,
tumores e o mundo como representação misógina.
Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas,
com a cerveja a premiar a farda
demasiado verde e os bigodes de serviço.

Outros, alguns, tornam concreto o torpor
de um charro e pedem-te em crioulo básico
um cigarro português que tu vais dar,
sem esforço nem palavras. Entre shots, piercings,
t-shirts de Guevara e gel, podes não acreditar
por algumas horas no axioma frágil do teu corpo.

Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar
qualquer, país de enganos e baratas. E
quase gostas disso, quase: a música de punhais,
servil, um certo e procurado desencontro.
Um táxi te ensinará depois o caminho de casa
- ou o seu contrário, pois só ali (anónimo
e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser.


O resto, a vida, fica para outra vez.

lundi, mars 22

(...)
porque há uma luz que nunca se apaga
vem-me de ti

Ou digamos cravo, cetim
- how beautiful -
destas horas vãs. Entre
o torpor e o excesso,
tão próximos (outra vez) da morte.

Num gesto de penumbra, avanças
- e o meu rosto passa
a ser outra coisa qualquer.

Fugaz sinónimo de beleza

em vez das punhetas do costume.

Esvair

v.t. Esvaziar, esgotar, exaurir/ V.pr. Desaparecer, desfazer-se, dissipar-se: esvaíram-se-lhe as últimas esperanças. / Passar com rapidez, escoar-se: a mocidade esvai-se insensivelmente. / Desmaiar, descorar, desfalecer. // Esvair-se em sangue, dessangrar, perder sangue em abundância. //

jeudi, mars 18

São tão poucas as cinzas
do que não se diz, o coração
amarrotado sem mesmo assim
ter onde caber – e sob
trémulas figuras, é isto apenas.

Esperar a morte já tanto vivida.

mardi, mars 16

O sorriso escasso,
O riso-sorriso,
A risada nunca.
(Como quem consigo
Traz o sentimento
Do madrasto mundo.)

Com os braços colados
Ao longo do corpo.
Vai pela cidade
Grande e cafajeste,
Com o mesmo ar esquivo
Que escolheu nascendo
Na esquiva Itabira.

Aprendeu com ela
Os olhos metálicos
Com que vê as coisas:
Sem ódio, sem ênfase,
Ás vezes com náusea.

Ferro de Itabira,
Em cujos recessos
Um vedor, um dia
Um vedor - o neto -
Descobriu infante
As fundas nascentes,
O veio, o remanso
Da escusa ternura

lundi, mars 15

(...)de todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca - de vodca, de lágrima e de café.

vendredi, mars 12

Puro cérebro sem dor perdido nos labirintos daquilo que tinha acabado de acontecer. Dor branca, querendo primeiro compreender, antes de doer abolerada, a dor. Doeria mais tarde, quem sabe, de maneira insensata e ilusória como doem as perdas para sempre perdidas, e portanto irremediáveis, transformadas em memórias iguais pequenos paraísos-perdidos. Que talvez, pensava agora, nem tivessem sido tão paradisíacos assim.

jeudi, mars 11

Não é fácil resistir a tudo
o que nos roubam.
Tempo, memória, mundo.
Toleramos o insuportável
com insuportáveis venenos.
Até melhor ordem, se houver.

Noutras casas (lembro-me)
éramos mais, bebíamos
apressadamente a juventude.
Mas a vida — chamemos-lhe
assim — separa os que se juntam,
gosta de abismos fáceis.

mercredi, mars 10

Mas tudo mais falece quando pensas tardança
E te despedes.
E quando pensas breve
Teu balbucio trêmulo, teu texto-desengano
Que te espia, e espia o pouco tempo te rondando a ilha.
E quando pensas vida que esmorece. E retomas
Luta, ascese, e as mós do tempo vão triturando
Tua esmaltada garganta... Mas assim mesmo
Canta! Ainda que se desfaçam ilhargas, trilhas...
Canta o começo e o fim. Como se fosse verdade
A esperança.

mardi, mars 9

Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.



...e o coração pulsando dentro começou a incomodar.

dimanche, mars 7



Chegas - se é que se pode chamar
regresso ao gesto anónimo
e vacilante com que vais deixando
para trás a madeira suja dos degraus.

Nunca saberás se te trouxe
um táxi, que música te roubou
- ou se a falta de dinheiro
te fez apanhar o último autocarro.


Sabes apenas que encontraste
as chaves e que não despiste
a roupa onde volta a ser teu o corpo.

Mas é-te impossível recordar
os rostos, o que disseram ou calaram,
o preço pago por tanto esquecimento.


Foi uma noite banal, portanto.
Nem amor nem sexo
- apenas
a perfídia de seres tu, o espanto
com que ao fim da tarde acordas
e percebes que o mundo
não teve o bom senso de acabar.

Por isso sais - ou foges (vai dar
ao mesmo) quando os vizinhos
regressam de mais um dia proveitoso,
dedicado à mecânica reprodução
do horror, da velhice e das taxas de juro.

Eles e tu movidos pela mesma nenhuma razão.

Não há, de facto, diferença.
Ou cedo deixará de haver
e é como se nunca tivesse havido.
Os primeiros dentes de um filho
deixam-nos certamente tão felizes
como o tango que acompanha agora
estes versos escritos quase à hora de acordarem.


O desespero tudo permite, tornando
equivalentes o livro que acabaste de fechar
e as infindáveis telenovelas com que
premeiam o cansaço e garantem o sono.

Adormecendo eles e tu, apesar da diferença
horária, sobre a imagem nula daquilo
a que insistimos em chamar "amor".


Talvez amor. Não sabes. Desces
de novo os mesmos degraus,
fugindo da bonança que não há
e do irremediável flagelo dos teus passos.
Pouco tens a dizer desse
desencontro, da noite fria que te espera.


Acreditas, uma vez mais, na morte.
(...) Quanto a ti, já reparaste como o mundo parece feito de pontas e arestas? Já chamei tua atenção para a escassez de contornos mansos nas coisas? Tudo é duro e fere. (...)

vendredi, mars 5

(...)
O corpo já quase não responde
a tanta tristeza. E a casa, devagar,
fecha-se para dentro, implode. Parece
um coração, uma metáfora que te deixa
nos ombros um irrepetível cheiro a merda
e a sombra de um gato que vai morrer.

(...)


jeudi, mars 4

Dias há para perceber o fundo do poço,
a sede dos dias que se afundam,
não se percebem.

E o fundo do poço percebe-se
que seja sede de dias.

De alturas antigas
que viajam em vertigem.

Viajam nos nossos filhos,
e na luz que nos protege
da sede.

A luz que descobre o fundo
dos poços.

A vertigem da descoberta
abre-nos a boca timidamente
e mata-nos a sede
dia-a-dia ,

como se de um suave amor
incondicional
se tratasse.


mercredi, mars 3

"para onde vão os trens meu pai? para mahal, tamí, para camirí, espaços no mapa, e depois o pai ria: também pra lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti."

mardi, mars 2


Incompossível




in.com.pos.sí.vel



O incompossível se fazendo ordem.




.

lundi, mars 1

Silente grito
aspergido pela saudade
nos meus veios circunscrito.

Capaz de derramar
gotículas longínquas de presença,

de tacanha fragilidade.


Silente grito caminhante,
viajante sem bagagem
rumo a um norte fátuo.








... e o coração posto a nu de tanta saudade.




-

dimanche, février 28

Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar

Quero esquecer tudo
Quero descansar.
O desespero - percebes finalmente - 
era uma energia, uma espécie de caminho
para quem não tinha passos. Os amigos
(se assim lhes podias chamar) encontravam-se
à volta de uma garrafa e injuriavam toda a noite
o amor de que em breve se fariam escravos.

Falavam de quase nada, os olhos parados
na música, o corpo disponível
para charros, risos e derrotas. Essas ruas,
sabes, nunca mais foram assim
o rastilho da descrença e o motim da desrazão.
Coisas de facto imberbes - navalhas
que fingiam a dolorosa perfeição da indiferença.

Pouco importa. Outros sinais cresceram,
fazendo desses rostos uma porta
fechada onde nem pela memória
esperas o milagre de encontrar alguém.
Deve ser a morte, o fim, isso mesmo
que julgavas esconjurar quando punhas flores
no gargalo verde e vigiado das garrafas.

A luz dos últimos bares tomba agora
sobre um corpo esquivo, mais sozinho,
que nem sequer nestas palavras acredita.




(...) A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais.


lundi, février 22

Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminado a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.

dimanche, février 21

Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.




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